Comparando a vida com uma partida de futebol, os diretores Walter Salles e Daniela Thomas contam a história de uma mãe e seus quatro filhos homens no “Linha de Passe”, filme brasileiro concorrente à Palma de Ouro.Ao assistir à película, é impossível não reparar na atuação brilhante de todos os atores, inclusive dos coadjuvantes. Na verdade, Daniela conta que não houve figurantes. São pessoas encenando sua própria rotina, como os fiéis na igreja e os meninos que passam pelas peneiras nos clubes de futebol, tentando a riqueza e a fama dos jogadores. A família mora na Cidade Líder, bairro paulistano.
Falando dos personagens principais, é meio óbvio dizer que Sandra Corveloni (a mãe Cleuza) foi excepcional em seu papel, já que ela ganhou o Cannes de melhor atriz este ano.
Outro destaque é o pequeno Reginaldo, interpretado por Kaique de Jesus Santos, que tenta descobrir quem é o pai e passa o dia circulando pelos ônibus da cidade. Ele é tão natural, que em algumas cenas parece estar improvisando, como na hilária parte em que diz ao irmão Dario para pedir desculpas a ele, não sem ouvir as reclamações daquele, que enquanto xinga é interrompido pelo mais novo: “ó, não estou ouvindo as desculpas!”, e fala com a mão na orelha.
Aliás, Dario é interpretado por Vinicius de Oliveira, que ficou famoso no papel de Josué em “Central do Brasil” (lembra, aquele menino que perdeu a mãe e teve a ajuda da personagem de Fernanda Montenegro?), também de Salles. Desta vez, ele faz um adolescente que pretende ser jogador de futebol, mas já fez 18 anos e ainda não conseguiu, apesar de participar de várias peneiras e jogar bem. Seu problema, no começo, era ser “fominha”.
Outro filho de Cleuza é Dinho (José Geraldo Rodrigues), um frentista evangélico que esconde um passado podre não revelado. Por fim, tem o Dênis (João Baldasserini), motoboy que sustenta o filho (ou, melhor, tenta) e é pressionado pela mãe da criança para pagar a pensão, mas vive na pindaíba.
Os três filhos que têm o nome começado pela letra “D” são de um pai – e não se sabe o que aconteceu com ele –, já Reginaldo é de outro, um negro “carvão”, como ele pensa que deve ser por causa da cor de sua pele, já que a mãe é branca. E ela, a mãe, já está grávida, mas não sabe, ou não revela, quem é pai. Cleuza é corinthiana roxa, trabalha como doméstica e fica o dia todo fora.
São essas as personagens, que encenam alguns trechos baseados em histórias reais. Os personagens jogam com a vida, passando a bola um para o outro, se ajudando ou se criticando, como uma família é, independente de classe social. Sai briga? Claro! Defendem-se? Também! Ajudam? Sim!
Mas não é fácil... cena comum no longa é a de Cleuza tentando desentupir a pia da cozinha, mais de uma vez. É, minha amiga, a vida não flui... a água não desce, parece que não anda... Quem nunca se sentiu assim? “Não tem um homem nessa casa para desentupir essa pia??”. A gente apela e pede ajuda. A vida está tão complicada para Cleuza para até o Corinthians está na 2ª Divisão do Campeonato Brasileiro, para alegria da torcida anticorinthiana. É para não esquecer esse momento real.
Apesar da pobreza retratada, os diretores tiveram o cuidado de mostrar que não existe só bandido na periferia. As pessoas têm sonhos e fazem de tudo por eles. A tentação existe, mas o mundo não é separado entre bom e maus, com cada um num espaço territorial demarcado.
Algumas pessoas podem achar a cena de sexo, o excesso de palavrões e o sangue de um motoqueiro acidentado na rua um exagero, mas faz parte. Fazem parte da vida esses momentos. E a forma tão natural com que foram apresentados no filme não torna estes retratos extravagantes, mas sim parte de uma composição perfeita, mostrando a vida como ela é. Não só a sofrida – pelo amor de deus –, mas a real. Quem não almeja, quem não tem raiva, quem não tem idéias idiotas, quem não quer ser feliz? Com “Linha de passe”, Salles e Daniela fizeram uma crônica urbana.
E essa crônica não tem fim, é cíclica, é ativa e reativa. O clímax vem para todos os personagens ao mesmo tempo, no final do filme, mas eles estão sozinhos com suas decisões. Cada um enfrentando o que pode e o que não pode por suas próprias pernas, defendendo valores sociais como posição profissional e caráter. É a livre escolha, é a que leva os personagens não a um final fechado, mas a novas oportunidades na vida, conseqüência do que se escolheu seguir.
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