terça-feira, 30 de setembro de 2008
Nossos vizinhos: nosotros también tenemos calidad
Quem gosta muito de cinema, e assiste a muitos longas por semana, às vezes sente a necessidade de fugir das produções hollywoodianas e assistir a estilos, histórias e visões diferentes.
Talvez esse “diferente” esteja mais próximo do que se imagina, em algum país vizinho. Vamos direto ao assunto: você conhece o cinema latino-americano? Argentina, Bolívia, Colômbia, Cuba, Equador, México, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela também produzem filmes. E muitos são de boa qualidade. Inclusive, estes países estiveram presentes no 3ª Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, que aconteceu no Memorial da América Latina, na Cinemateca, no Cinesesc e no Cinusp, de 8 a 13 de julho deste ano.
“O cinema feito na nossa região tem merecido justo destaque internacional nos anos recentes. Isto se deve à elevação do seu grau de profissionalização, à sinergia com os demais meios de comunicação e à criatividade dos temas abordados”, declara no site oficial do evento (http://www.festlatinosp.com.br/) José Serra, governador do Estado de São Paulo.
Para falar sobre o cinema latino-americano, entrevistamos dois especialistas: Marilia Franco, professora assistente doutor do Departamento de Cinema Rádio e TV da Escola de Comunicações e Artes da USP – que também foi diretora docente da Escuela Internacional de Cine y TV em Cuba –, e o cinéfilo Ravi Santana, jornalista do Guia da Semana.
Características
Vamos começar pelas características cinematográficas latino-americanas. Marilia explica que estes países têm culturas muito específicas e muito fortes, sobretudo aqueles em que as culturas indígenas ainda têm peso muito grande. “Essas particularidades ficam bastante evidentes nas cinematografias, embora haja um tema comum que é o subdesenvolvimento e a desigualdade social”, descreve.
Já Ravi acredita que, hoje, como muitos filmes latinos não são produzidos por uma só nação, fica difícil identificar o país de produção de determinados filmes. Por exemplo, “Leonera” (2008), [veja trailer] um dos sucessos argentinos recentes, é uma co-produção com o Brasil e a Coréia do Sul.
E quanto ao tipo malandro, sensual e que tira vantagem de tudo, como os latinos são retratados em muitas produções hollywoodianas? Ah, os engajados não se preocupam com isso, diz Marilia, o calo é mais embaixo. “O chamado cinema engajado latino-americano não pretende reverter a imagem distorcida que os estereótipos do cinema norte-americano criaram, mas sim produzir um cinema que afirme a situação de subdesenvolvimento como conseqüência da ocupação político-econômico-ideológica do continente para servir aos interesses norte-americanos”.
Em tempos mais contemporâneos – continua a professora –, as cinematografias latino-americanas estão mais afirmativas de seus próprios valores nacionais como forma de consolidar um espaço cultural e artístico próprio que preencha os vazios deixados pela superficialidade, violência e banalidade das produções norte-americanas. Em outras palavras, um tapa na cara dos hollywoodianos.
Para Ravi, o cinema, antes de tudo, é um espelho da sociedade. “Essa visão dos estadunidenses ainda existe, mas não é mais tão comum como há vinte ou trinta anos. Isto deve representar não uma preocupação maior dos produtores de Hollywood, mas um conhecimento mais aprofundado do americano médio sobre os povos que vivem ao seu redor”, diz.
Concordando com a professora, o jornalista não acredita que exista dentro da classe cinematográfica alguém que tenha em mente passar ao mundo uma imagem mais realista de quem é o povo latino-americano. “Acredito que quando alguém faz um filme, ele pensa antes de tudo em tirar um retrato do que representa para ele a sociedade. Sempre vai haver preconceito, mas se alguém realizar um filme querendo desfazer estes preconceitos, ninguém vai se interessar pela obra”, analisa.
Ditadura
Agora, uma pergunta que pode estar na cabeça de muitos: por que o cinema latino-americano aborda tanto a ditadura vivida por estes países? Por exemplo, o chileno “Machuca” (2004), o argentino “A história oficial” (1985) e o brasileiro “O que é isso companheiro?” (1997).
De acordo com Marilia, este tema é freqüente porque a América Latina viveu um circuito de ditaduras militares muito duras ao longo de todo o século XX. Essas ditaduras, sustentadas por interesses político-econômicos da guerra fria, comandada pelos EUA, cerceavam fortemente as atividades culturais e artísticas, que sempre foram mais críticas e libertárias. O cinema foi uma das atividades criativas mais atingidas por essas situações, observa a professora.
Contando sua experiência, Ravi diz que uma vez entrevistou o diretor Helvécio Ratton sobre o filme brasileiro “Batismo de Sangue" (2007), [leia crítica] e o questionou a respeito de haver tantos filmes ultimamente sobre a ditadura aqui no Brasil – resposta que pode enquadrar também nos demais países. “Ele disse que a maioria dos cineastas que foram de alguma forma envolvidos com o Regime Militar e que tiveram suas vidas afetadas pela ditadura hoje tem a maturidade e um distanciamento adequado para poder falar sobre isso, então eles querem aproveitar este momento para expurgar esses sentimentos”, declara, comparando com o fato de ter havido vários filmes estadunidenses sobre a Guerra do Vietnã, algum tempo atrás.
Poder norte-americano
Sobre a dificuldade de os filmes latino-americanos entrarem no nosso mercado, apesar da grande produção cultural, Marilia aponta o poder norte-americano. Ela explica que o cinema norte-americano ocupou as telas latino-americanas a partir da década de 1920, no seu primeiro movimento expansionista. Ocupou telas inclusive em países que mal começavam a produzir suas próprias imagens. “Desde então, a base do desenvolvimento cinematográfico, que é o tripé formado por produção/distribuição/exibição, ficou fracionado, e os países latino-americanos nunca puderam superar esse rompimento, pelos mesmos motivos da ocupação política que acabou por fomentar e sustentar as várias formas de ditadura que se distribuíram pelo continente”, diz.
Ravi concorda. Para ele, o mercado é quase todo dominado pela indústria dos EUA, e o que não é, tem de ser dividido entre cinema oriental, europeu, latino-americano e nacional, sobrando pouco espaço para cada um deles. Além disso, analisa a falta de infra-estrutura no Brasil. “O grande problema do mercado exibidor no país é que ele quase não existe. Há diversas opções em grandes cidades, como São Paulo e Rio de Janeiro, mas a maioria dos municípios sequer tem uma sala”, ressalta.
Argentinos x brasileiros
E a briga entre argentinos e brasileiros, tão típica do futebol, também existe no cinema? Quer dizer, os filmes de “nuestros hermanos” são mais valorizados que os nossos por aí? Não para Marilia e Ravi.
Segundo a professora, o que existe no Brasil é uma recepção favorável ao cinema argentino, “sobretudo entre alguns críticos e intelectuais que vêem um maior engajamento político e uma maior ousadia estética nos filmes argentinos”.
Já o jornalista defende nosso país destacando que temos hoje diretores de bastante respeito no mundo todo, principalmente Fernando Meirelles e Walter Salles, mas não só eles. E toca em um ponto polêmico: “a questão do cinema argentino é que há um valor maior para ele, talvez, em seu próprio país, o que pouco acontece aqui. Questões culturais acabaram fazendo com que o cinema nacional fosse algo desprezado pela população brasileira, e esta é a maior dificuldade em se ter sucesso com um filme aqui”. Hum... quantos filmes brasileiros você já assistiu?
Para melhorar
Está ruim? Está bom? Pode melhorar? O que falta para o maior desenvolvimento do cinema em países latino-americanos e o que falta para sua maior divulgação?
“Falta exatamente a religação do circuito criativo do fazer cinematográfico, pois sendo o cinema uma atividade cara, que primeiro produz para depois reaver o capital investido, jamais será possível desenvolver a atividade se os filmes produzidos não tiverem telas para chegarem ao público”, declara Marilia, acrescentando que essas telas jamais estarão disponíveis se a distribuição e a exibição continuarem nas mãos da indústria norte-americana.
Ravi também acha isso. “Não sei como estão os demais países, mas sei que ao menos Brasil e Argentina tem uma grande facilidade em produzir, mas não é tão simples mostrar o que foi feito, principalmente aqui”, opina. Para ele, é preciso que haja um movimento para incentivar o acesso aos filmes, seja em projetos como o Cine Tela Brasil, da Lais Bodansky e do Luiz Bolognese, seja de outra forma. “Mas o povo dificilmente vai pagar R$ 20 para ver algo em que ele não tem confiança. Talvez não pague nem mesmo se gostar de filme nacional. Além disso, a divulgação dos filmes é bastante falha. Em um filme de Hollywood há uma preocupação desde o começo em registrar fotos de produção, disponibilizar entrevistas, material para a imprensa, coisa que nos filmes brasileiros pouco acontece. Assim a imprensa acaba se cansando e deixa de divulgar obras que são muito boas”, finaliza.
Dicas de filmes latino-americanos (Top 3)
“O Banheiro do Papa", 2007 – Brasil, Uruguai e França
Direção: César Charlone e Enrique Fernández [visite o site do filme]
"Morango e Chocolate", 1994 – Cuba, México e Espanha
Direção: Tomás Gutiérrez Alea e Juan Carlos Tabío [leia análise ]
“Nove Rainhas", 2000 – Argentina
Direção: Fabián Bielinsky [visite site com a sinopse do filme]
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
Orkut também é cultura
Não só para saber da vida alheia e reencontrar conhecidos de longa data serve o site de relacionamentos Orkut. Até jornalistas e departamentos de RH de empresas têm usado o espaço para obter “mais informações” sobre algo ou alguém. Ou seja, o Orkut pode ser fonte de informação, e boa informação.As comunidades são ótimos locais para conhecer pessoas que sabem o que falam sobre determinado assunto, o negócio é garimpar, porque também têm aquelas que nem português sabem escrever...
Algumas comunidades podem até ter um tema bacana, mas quando você entra, a última postagem nos tópicos é bem antiga ou, ainda, só tem spam, o que indica a falta de um moderador ativo. Aí não dá. E aquelas que só têm joguinhos, tipo: “qual foto da pessoa acima é a mais bonita”, “que música você dedica para a pessoa de cima”... me poupe.
Mas há comunidade que oferecem informações úteis, como a “São Paulo Cultural”, que toda hora ganha uma nova resposta a algum tópico. Nela você pode encontrar dicas de filmes, exposições, peças ou musicais, e, de quebra, pode conhecer muita gente legal que tope fazer esses programas com você. Eles estão tentando organizar um encontro cultural para reunir pessoas da comu em algum local. Fique de olho.
Na área de eventos também estão listadas atrações para não se perder nada de bom que tem em São Paulo, desde as mais caras até as gratuitas, em todos os cantos da cidade. Até curso e lançamentos de livros estão por lá.
E tem outra. A comu “Centro Cultural São Paulo” também é legal. Eles dão dicas do que gostam mais no local e das coisas que irritam, como as conversas na biblioteca... ou seja, vá preparado! Apesar de ser uma comunidade sobre o Centro Cultural, as pessoas abrem tópicos muito pertinentes sobre política, é um bom local para discussão.
Ah! Abriram um sobre um projeto muito legal que eu não conhecia. Você sabia que livros são perdidos de propósito por aí? A intenção é as pessoas lerem livros e depois os deixarem perdidos para outra pessoa achar, ler e perder de novo. Em algum lugar do livro tem um site e um código para você saber onde anda o livro que você perdeu ou por onde já passou o livro que você achou. O site citado no tópico “Eu achei um livro” é o http://www.livr.us/. Nele está escrito: “’Perca um Livro’ é uma iniciativa que pretende trazer para o Brasil uma prática internacional de incentivo à leitura. A idéia é ‘perder’ um livro em lugar público para ser achado e lido por outras pessoas que, então, farão o mesmo. O objetivo é fazer do mundo inteiro uma livraria”. Bacana, né? No site tem mais informações.
Viu? Orkut não é só besteira, não. Apesar de ser usado para tantas bobagens...
terça-feira, 16 de setembro de 2008
O poder da música
“Eu só quero é ser feliz, viver tranqüilamente na favela onde eu nasci, e poder me orgulhar e ter a consciência que o pobre tem seu lugar”. Esses e outros funks estão no documentário “Sou feia mas tô na moda” (2005), de Denise Garcia, gravado nas favelas do Rio de Janeiro.
O filme mostra o preconceito sofrido por quem vive na favela, principalmente as mulheres, sempre mal vistas. Para estas pessoas, que não conseguem emprego e são tachadas de bandidas, o funk é a voz da comunidade, é o meio por onde podem contar o que vivem diariamente, os problemas que sofrem e as dificuldades que passam.
Os funkeiros entrevistados no documentário dizem que é mais fácil o poder público calar a boca deles do que “arrumar” a situação de exclusão que vivem. Isso devido à proibição de algumas canções e da perseguição da polícia nos bailes. Algumas letras falam sobre o Comando Vermelho e outras facções criminosas, mas são eles que estão do lado da comunidade quando ela precisa, enquanto as autoridades não fazem nada por eles.
“Sou feia mas tô na moda”, nome de uma música da funkeira Tati Quebra-Barraco, quer dizer que com o sucesso do funk, as mulheres, feias ou bonitas, tiveram a oportunidade de se mostrarem para o mundo, expressando pela dança a cultura da comunidade. É a chance de serem famosas e de se tornarem referência para as mulheres da região onde vivem. O funk, para elas, é uma manifestação importante que as torna aceitas.
Para quem não curte o som, independente do motivo, o documentário abusa dos pancadões: é “Eguinha Pocotó” e “Frango Assado” nas orelhas, penetrando na alma. Não se pode dizer que não gostar de funk é ser preconceituoso, afinal, gosto não se discute. O problema é que algumas pessoas que ouvem esse tipo de som fazem questão de mostrar para quem está em volta que ele é “mano”, que é da favela. Quantas vezes não tive de fazer uma viagem de ônibus ou metrô ouvindo funk de um MP3 alheio? O pior é que ele fica na cabeça por um bom tempo...
Mas, quem gosta desse som não é só quem vive nas favelas. O documentário mostra o sucesso do DJ Marlboro na França, Inglaterra e Eslovênia, arrebentando nas boates. Os gringos curtem muito a batida e a associam com as músicas eletrônicas do país deles.
No Brasil, de fato, há preconceito contra a chamada “música de bandido” e “música de favelado”, mas o rap também passa pelo mesmo estereótipo. Gostos diferentes? Pode ser. Preconceito? Talvez. Ignorância? Sim. Quem tem o direito de dizer o que é bom ou ruim?
Em uma sociedade que tem desigualdades sociais tão gritantes, é natural cada um defender o que retrata a sua realidade e tem a ver com suas influências. Melhor? Pior? É música. Quem critica também leva em consideração o enorme apelo sexual das letras de funk, como “tira onda pra elas é viver de sacanagem / os gatinhos até gosta / mas tu sabe como é / se eles pagam motel / elas faz o que eles quer”, da música “Discurti”, de Deize Tigrona. Mas esse apelo também é encontrado em outros gêneros musicais, como axé e algumas músicas americanas que você pode ouvir e não entender, como algumas da Britney Spears.
O que a música tem de especial é a forma como ela toca a pessoa que ouve. É mais do que uma letra bonita ou bem feita. O importante é o que ela faz você sentir.
terça-feira, 2 de setembro de 2008
A São Paulo e os motoboys
É para deixar pensativa a pessoa que assistiu ao documentário brasileiro “Motoboys – vida loca” (2003). O diretor, Caíto Ortiz, por meio de entrevistas com motoboys, motoristas de carros, autoridades, urbanistas, até a então prefeita, Marta Suplicy, e muitas outras figuras paulistanas, deixa a discussão no ar para você decidir: motoboys são mocinhos ou bandidos?Uns defendem que a culpada é a cidade, que vive numa pressa constante e exige esforços sobre-humanos para dar conta do que precisa ser feito. É até engraçado, a cidade que mais precisa de agilidade é a mais lenta...
Outros acreditam que os motoboys são os monstros de São Paulo, agredindo carros e exigindo espaço por onde passam, sempre mal-educados. Se eles têm pressa, todos têm! Afinal, quem consegue dirigir na cidade que não anda?
E você vê a família daqueles que não têm opção de emprego, nem estudo, e precisam ser motoboys. E você vê a revolta da jovem motorista de carro que ganhou um “chute” na janela do veículo e volta chorando para a casa. E aí? De que lado ficar?
Uma mulher resolve se tornar motogirl para fugir do peso da morte do filho, "eu não tenho mais nada a perder". Aquele outro motoboy só fica em cima da “motoca”, fazendo trabalhos noite e dia. O outro só trabalha em razão da família. São pessoas como quaisquer outras que ganham a vida nesta louca metrópole. Aliás, “vida loca” é a de quem vive em São Paulo. Nunca se tem tempo para fazer o que quer. Nunca há tempo para cumprimentar os outros. Sempre se corre e nunca se alcança. Quem é louco?
O filme mostra as duas faces da moeda e deixa você com seus pensamentos. Como parece difícil escolher um lado, talvez o mais sensato seja respeitar as pessoas, ver onde você está errando e no que pode melhorar. Ninguém muda ninguém. A cidade é feita de gente, e é a gente que precisa mudar.
Documentário: Motoboys – vida loca
Ano: 2003
Diretor: Caíto Ortiz
Roteirista: Giuliano Cedroni
Elenco: Paulo Mendes da Rocha, Marta Suplicy, Washington Olivetto, Gilberto Dimenstein, Serginho Groisman, Carlos Zaratini, Roberto Scaringela, J.R.Duran, Rafic Farah, Jacob Pinheiro Goldberg, Xis.
Estúdio: Prodigo Films/Estúdios Mega
PS: E na hora de pedir uma pizza para acompanhar o documentário, não se esqueça de valorizar o motoboy que a entregou! E você, motoboy que entrega pizza, não se esqueça da educação!