“Eu só quero é ser feliz, viver tranqüilamente na favela onde eu nasci, e poder me orgulhar e ter a consciência que o pobre tem seu lugar”. Esses e outros funks estão no documentário “Sou feia mas tô na moda” (2005), de Denise Garcia, gravado nas favelas do Rio de Janeiro.
O filme mostra o preconceito sofrido por quem vive na favela, principalmente as mulheres, sempre mal vistas. Para estas pessoas, que não conseguem emprego e são tachadas de bandidas, o funk é a voz da comunidade, é o meio por onde podem contar o que vivem diariamente, os problemas que sofrem e as dificuldades que passam.
Os funkeiros entrevistados no documentário dizem que é mais fácil o poder público calar a boca deles do que “arrumar” a situação de exclusão que vivem. Isso devido à proibição de algumas canções e da perseguição da polícia nos bailes. Algumas letras falam sobre o Comando Vermelho e outras facções criminosas, mas são eles que estão do lado da comunidade quando ela precisa, enquanto as autoridades não fazem nada por eles.
“Sou feia mas tô na moda”, nome de uma música da funkeira Tati Quebra-Barraco, quer dizer que com o sucesso do funk, as mulheres, feias ou bonitas, tiveram a oportunidade de se mostrarem para o mundo, expressando pela dança a cultura da comunidade. É a chance de serem famosas e de se tornarem referência para as mulheres da região onde vivem. O funk, para elas, é uma manifestação importante que as torna aceitas.
Para quem não curte o som, independente do motivo, o documentário abusa dos pancadões: é “Eguinha Pocotó” e “Frango Assado” nas orelhas, penetrando na alma. Não se pode dizer que não gostar de funk é ser preconceituoso, afinal, gosto não se discute. O problema é que algumas pessoas que ouvem esse tipo de som fazem questão de mostrar para quem está em volta que ele é “mano”, que é da favela. Quantas vezes não tive de fazer uma viagem de ônibus ou metrô ouvindo funk de um MP3 alheio? O pior é que ele fica na cabeça por um bom tempo...
Mas, quem gosta desse som não é só quem vive nas favelas. O documentário mostra o sucesso do DJ Marlboro na França, Inglaterra e Eslovênia, arrebentando nas boates. Os gringos curtem muito a batida e a associam com as músicas eletrônicas do país deles.
No Brasil, de fato, há preconceito contra a chamada “música de bandido” e “música de favelado”, mas o rap também passa pelo mesmo estereótipo. Gostos diferentes? Pode ser. Preconceito? Talvez. Ignorância? Sim. Quem tem o direito de dizer o que é bom ou ruim?
Em uma sociedade que tem desigualdades sociais tão gritantes, é natural cada um defender o que retrata a sua realidade e tem a ver com suas influências. Melhor? Pior? É música. Quem critica também leva em consideração o enorme apelo sexual das letras de funk, como “tira onda pra elas é viver de sacanagem / os gatinhos até gosta / mas tu sabe como é / se eles pagam motel / elas faz o que eles quer”, da música “Discurti”, de Deize Tigrona. Mas esse apelo também é encontrado em outros gêneros musicais, como axé e algumas músicas americanas que você pode ouvir e não entender, como algumas da Britney Spears.
O que a música tem de especial é a forma como ela toca a pessoa que ouve. É mais do que uma letra bonita ou bem feita. O importante é o que ela faz você sentir.
Nenhum comentário:
Postar um comentário